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25 de mai. de 2012

DUAS PERGUNTAS




Olá queridos filhos, amigos, irmãos e leitores. Vou confessar para vocês que eu não me planejo muito na hora de escrever. Realmente não defino uma pauta semanal com assuntos importantes. Não, eu me deixo guiar pelo acaso e curiosamente a vida me planta nos sentidos algo interessante para discutir. E foi exatamente isso que me aconteceu ontem.

Em uma conversa trivial com uma filha, ela me relembrou uma pergunta crucial a todo umbandista: 

"O que você espera de um terreiro?"

E é exatamente sobre isso que conversaremos hoje. A minha opinião é simples: não espere nada! Porque é exatamente este o propósito da Umbanda, você não ganhará absolutamente nada da instituição ou de qualquer pessoa lá, seja ela carnal ou espirito. O umbandista está na fé para se doar, ele tem a consciência de que faz parte de uma grande máquina chamada vida e sabe que ali ele representa uma dentre milhões de engrenagens que precisa funcionar perfeitamente para que toda a estrutura siga em frente sem danos ou excesso de pressão na engrenagem seguinte. E ele faz mais, ele trabalha mais do que realmente pode para que alguma peça próxima que, por ventura esteja com alguma dificuldade, não sofra tanto com o peso do trabalho.

Isso é ser umbandista: é dar sem esperar receber. Não falo de dar algo material, algum objeto ou valor, eu refiro-me a dar-se, a se entregar de corpo e alma ás atividades do templo afim de aliviar o sofrimento alheio. Fazendo isso vocês sentir-se-ão mais recompensados do que se fossem aplaudidos de pé por uma multidão, isso eu posso apostar!

"Mas como eu faço isso mesmo estando cheio de problemas?"

É uma questão de visão. Uma outra amiga (creio que já posso me referir á ela assim) me mandou hoje uma linda mensagem que, em suma, diz que a vida é uma questão de escolhas. Você escolhe estar feliz ou triste, viver ou morrer, ajudar ou esperar auxílio mesmo sabendo que Oxalá lhe deus plenas condições físicas e mentais de vencer as demandas? A escolha é sua, o livre arbítrio é uma dádiva que Deus nos deu para que possamos fazer de nossas vidas o que bem entendermos e arcar com as consequências. Por isso eu digo a vocês que escolham estar bem, firmes e dispostos, que vão ao terreiro ou ao templo de sua fé para ajudar e fazer o bem, para contribuir com a sua força de espírito. Você sentirá como as energias do local mudarão, como tudo fluirá melhor e mais gracioso. E se você tem problemas, não se preocupe porque você não está só. Todos temos em menor ou maior grau, mas temos! Só que na Umbanda cremos em duas Leis que convergem: a Lei do Retorno e a Lei do Trabalho. Então ajude e a vida lhe mostrará a sua gratidão.

Com base neste pensamento eu deixo duas  questões a vocês:
  1. O que você espera de seu terreiro (leia-se sua religião)?
  2. O que você acha que seu terreiro espera de você?

A todos vocês um forte abraço e que Zambi os ilumine. Axé.


23 de mai. de 2012

O que você quer ser quando crescer ?



Astronauta, cientista, super-herói, sonhos nostálgicos, comuns, de quando ainda somos puros, de quando ainda somos crianças.

Fada do dente, coelho da Pascoa, Papai Noel, brincar de faz de conta, jogar peão, bater bafo, levar chinelada, andar descalço, jogar bola na rua, quebrar vidraça, chutar lata, apostar corrida, cuspidas, subir em árvore, espiar, ralar o joelho, riscar a parede, soltar bombinha, ter amigos, brincar de lutinha, ver desenho e dormir tarde. 

E depois que tudo isso passa, as únicas coisas que trazemos da nossa infância é a saudade e a mesma pergunta.

O que você quer ser quando crescer ?

Saber essa resposta, não será o fim de suas buscas, é apenas o ponto de partida que dará inicio a sua caça, para onde deve mirar sua flecha, é o que dará força para algo absurdo torna-se possível, não saber essa resposta também não é estar sem rumo, perdido ao relento, afinal temos pressa pra que ?

Dada a caça, com alvos na mira, o ímpeto e a vontade de vencer nos tomam conta, dia após dia criamos hábitos, mantemos a disciplina, acordamos cedo, temos bons dias, temos maus dias e até mesmo temos apenas dias, o que na minha humilde opinião são os piores. Acordamos cedo, dormimos tarde, economizamos, gastamos mais do que podemos, trabalhamos até tarde, tomamos café durante o dia e cerveja no final da tarde, pegamos transito carregado, metro lotado, ficamos com fome, com dor de cabeça e caímos na gargalhada nos momentos que mais precisamos ser sério. 

Segunda a Domingo, vivemos com a flecha armada e apontada para a nossa caça, para o nosso sustento, levamos o galardão no peito daquilo que somos, daquilo que escolhermos pra ser, e assim então segue nossa vida, trabalhando, caçando e colhendo. 

Hoje já não queremos ser mais astronautas, cientistas ou super-herói, não pulamos mais o muro e nem voltamos com o joelho ralado pra casa, não levamos mais chineladas, a não ser as que a vida nos prepara, também não chutamos lata e agora a brincadeira não é de faz de conta. 

Nossa lua virou uma casa, nossa formula cientifica hoje são contas do final de mês, e nossa missão como super-herói é manter se honesto e firme num mundo tão cheio de injustiças e vilões, nossas conquistas agora tem outros sabores, uns deixam se embebedar pelo vinho da ambição e acabam esquecendo que um dia já andaram descalços, outros ainda querem ir a lua, desenvolver formulas secretas ou voar pelo céu para salvar a linda donzela.

Mas uma coisa é fato e não mudou nada desde que eramos crianças, todos ainda temos sonhos. 

O que nos move, não é a conta paga, nem a casa quitada, muito menos o carro que você comprou, o que nos move está longe de ser o que nos tornamos, se somos astronautas ou hippies artesãos, o que faz nossos corações bater e os pulmões se encherem de ar a cada suspiro, é a vontade de vencer, de ter desafios, guerras e demandas para enfrentar, de resto, tudo o que você conseguiu sinto informar mas é mera consequência do sonho que teve e da batalha vencida, e que quando partir dessa, não levará nada contigo.

O que nos move é o desejo, o sonho. 

Ao contrário de que se pensa, os sonhos não são feitos daquilo que vivemos, o que vivemos é que é feito de sonhos. 

Apenas sonhe e cace, aprendi com meu pai que ele não atira para errar e minha mãe não guerreia pra perder, aprendi que se pararmos de sonhar, de ir a lua e de ser super-herói, nossas vidas serão apenas uma vida e não o sonho que sempre desejamos, seremos apenas mais um e não um super-herói. 

Que meu pai Oxóssi ilumine a caçada de todos aqueles que sonham, que minha mãe Iansã sopre os ventos para aqueles que ainda não tem sonhos, e que os ibejis façam daqueles que precisam, voltarem a sonhar como crianças.

18 de mai. de 2012

AS 7 LÁGRIMAS DO PRETO VELHO



Oi amigos leitores, gostaria de iniciar o texto de hoje falando sobre como mudamos de visão sobre as coisas no decorrer de nossas vidas. Duvida? Pare para pensar na sua adolescência, naquela época tudo parecia conflitante e virtualmente definitivo - você tinha o grande amor da sua vida, amigos eternos, problemas gigantescos e todo dia era o mais feliz ou o mais triste da sua vida, não é? E hoje, como você se vê? Ou melhor, como você vê o passado? Como você define a sua adolescência? Provavelmente (isso é válido, claro, para os leitores adultos) descobriu que a felicidade é situacional e que os problemas passam e que há coisas maiores a se preocupar. Olhamos para o passado com carinho e até um leve desdém, não é? Isso porque mudamos, tudo muda. Contudo as mudanças são tão graduais que mal percebemos, só nos damos conta quando olhamos, com os olhos de hoje, alguma coisa intacta do passado. Foi o que aconteceu comigo essa semana. 

Uma filha de santo viu na internet um texto que a comoveu, imediatamente ela copiou-o e colou em meu facebook dizendo "Lembrei de você. Não sei porque, leia aí...". Era um texto clássico de Umbanda, chamado "As sete lágrimas de um preto velho", que conta a história de um homem que foi em um terreiro e viu um preto-velho chorar, quietinho, em um canto e resolveu pergunta-lhe o motivo daquelas sete gostas que lhe correram a face. Eu já havia lido este texto há uns seis anos atrás e confesso que achei apenas mais uma história bonitinha de se colocar em um mural que jamais seria lido com seriedade por alguém, mas dessa vez a leitura me chocou. De tal forma que cheguei a sentir raiva e indignação. 

A seguir mencionarei cada uma delas e as comentarei para que assim vocês possam me entender um pouco. 

"A primeira, eu dei a estes indiferentes que aqui vem em busca de distração, para saírem ironizando aquilo que suas mentes ofuscadas não podem conceber..." 
Quantas vezes eu já vi pessoas que se dão ao trabalho de sair de seus lares, muitas vezes atravessando cidades, para chegar no templo e ficar conversando com a pessoa ao lado, ficar falando da roupa do irmão ou reclamando da vida. Alguns entram na Casa mas estão com a cabeça no lado de fora, nas baladas que deixaram de ir ou nos problemas amorosos ou de família. Isso vale para os filhos e para quem nos visita também. Terreiro é coisa séria e exige foco total de todos. 

"A segunda a esses eternos duvidosos que acreditam, desacreditando, na expectativa de um milagre que seus próprios merecimentos negam." 
Duvidar todo mundo tem direito, assim como acreditar é uma capacidade de cada um também. Quem vai no terreiro com dúvidas e fica testando os Orixás, sai de lá mais confuso ainda, porque eles intercalam grandes armadilhas com pontuais e profundas verdades. Assim eles tocam o seu espírito e mesmo assim a cética cabeça ainda fica confusa entre fatos e sensações. Não estamos aqui para provar nada a ninguém. 

"A terceira, distribui aos maus, aqueles que somente procuram a UMBANDA, em busca de vingança, desejando sempre prejudicar a um seu semelhante." 
Não é raro aquele que confunde o negativo com o mal. Aqueles que acham que a Umbanda é uma terra sem lei, que basta da r um presente a um Orixá e este lhe proverá o que pedir. Aqui pregamos a Lei do retorno, todos envolvidos em um ato de maldade (Orixá, médium, cambones, a Casa e seus auxiliados) serão cobrados por seus atos. 

"A quarta, aos frios e calculistas que sabem que existe uma força espiritual e procuram beneficiar-se dela de qualquer forma e não conhecem a palavra gratidão." 
Para aqueles que conhecem o poder de Oxalá e mesmo assim pensam em utilizá-lo em causa própria eu não dedico meu argumento. Tamanho o meu desprezo. 

"A quinta, chega suave, tem o riso, o elogio da flor dos lábios mas se olharem bem o seu semblante, verão escrito: Creio na UMBANDA, nos teus caboclos e no teu Zambi, mas somente se vencerem o meu caso, ou me curarem disso ou daquilo." 
Já vi pessoas querendo custear festas inteiras, centenas de sacos de doces para Cosme e Damião e até vestir branco e ingressar na gira. Saíram meses depois porque não ganharam nada em troca. Talvez seja o tipo mais comum dentre os errados em um terreiro. 

"A sexta, eu dei aos fúteis que vão de Centro em Centro, não acreditando em nada, buscam aconchegos e conchavos e seus olhos revelam um interesse diferente." 
Esses são os cupins de nossa madeira, a praga da lavoura. Pessoas que pulam de terreiro em terreiro, dizendo-se entendidos com suas guias brilhantes e seus cocares faraônicos. Chegam, encantam a todos por alguns minutos com a sua “sabedoria” e minutos depois já não agregam mais nada á gira. Assim seguem para outro templo... 

“A sétima, filho notas como foi grande e como deslizou pesada? Foi a última lágrima, aquela que vive nos olhos de todos os Orixás. Fiz doação dessa aos Médiuns vaidosos, que só aparecem no Centro em dia de festa e faltam as doutrinas”. 
O filhos que aparecem três vezes ao ano no terreiro: na festa de Cosme e Damião, na de Pretos Velhos e na de Iemanjá. Via de regra chegam enfeitados como pavões de forma a atrapalhar a mobilidade do Guia ou até mesmo sua sintonia, uma vez que este médium fica tão preocupado se o penacho não vai cair ou se vai sujar a roupa, que esquece-se do seu dever na casa. Este tipo de pessoa faz a gira parecer um teatro, pois sai correndo para o banheiro para se trocar a cada mudança de linha. A corrente vibratória, para que? 

Agora eu entendo porque o preto velho chorou. Axé. 

Em tempo: dia 26/5/12, sábado, será realizada a Festa de Pretos-Velhos no Templo de Umbanda Portal dos Orixás. Estão todos convidados.
Para maiores informações deixe suas questões nos comentários ou ligue 13-94256159








17 de mai. de 2012

Arquétipos, estereótipos e personalidades.




Três itens de grande importância na psicologia, vou conceitua-los para que possamos dar continuidade a nossa leitura de hoje. 

Arquétipo
O Psiquiatra Carl Jung definiu o termo arquétipo como sendo o molde resultante da somatória de experiências vividas pela humanidade de maneira inconsciente em cada ser. 

O que ???

Falando de uma maneira mais simples, nossa amigo Jung diz, que arquétipos são concepções adquiridas não exclusivamente por você leitor, ou pela sua mãe ou só pelo seu pai, esse molde ideológico é construído através de todas as experiências que a humanidade já teve embasadas, na crença, nos valores, na moralidade etc..

Um exemplo disso; ainda quando atuava como analista, Jung tinha pacientes que tinham sonhos e alucinações com mitos que nem se quer conheciam devido a idade que tinham, porém tais mitos já eram muito conhecidos historicamente, como ainda são hoje Hércules, Zeus e toda sua cúpula de deuses. Outro exemplo mais palpável é a forma inconsciente de crença num ser supremo que crianças de 5 a 7 anos tem, mesmo que seus pais nunca tenham falado sobre Deus, Jesus ou qualquer divindade, todas irão questionar, sobre o que existe no céu, ou pra onde iremos depois de morrermos, o famoso consciente coletivo atuando. 

Isso é um arquétipo e ele varia de acordo com o contexto que a humanidade estiver inserida. 

Estereótipos
Simples de ser explicado, quer ver ? 

Filhos de Ogum, são valentes, guerreiros, impulsivos, tem porte forte, são altos, muito de seus filhos seguem profissões que são regidas por alta disciplina e com grande inclinação para o militarismo. 

Viu ? Isso é um estereótipo, é caracterizar alguém por determinadas condições que a pessoa possui, um outro exemplo mais simples. 

Defina um corintiano: Maloqueiro, tatuado, sofredor e mora na Zona Leste.

Personalidade:
A grosso modo é o conjunto de características que determinam o jeito de pensar, sentir e agir de cada ser, em suma junte um arquétipo e um estereótipo e terá uma personalidade. 

Ufa, quanto blá blá blá Arruda, pra que tudo isso ? 

Bom vamos lá, já sabidos do que é e o que significa cada termo acima, podemos dar continuidade a nossa leitura.

Como todo bom ser humano, em determinadas situações é muito fácil agente externar a causa do problema do que assumirmos que ele está dentro de nós, culpar agentes externos nos da aquela falsa sensação de alivio e de estarmos livres de culpa. 

"Hoje meu dia foi uma droga por causa desse transito terrível que já me estressou pela manhã". 

Não, o transito sempre esteve lá todas as manhãs, hoje você estava mais apto a se estressar e assim o fez, seu dia todo foi muito ruim e para se livrar da culpa unicamente sua, externalizou para o transito. 

E não é que o mesmo acontecem com nossos queridos Orixás ? Por diversas vezes, já vi acontecer de pessoas externalizarem seus vacilos para o santo. 

"Ah desculpe, sou filho de Ogum, não me contive e explodi com você por conta disso" ou "Ah é difícil ter perdoar, sabe como é minha mãe Oxum né sou igual ela, sou rancorosa." 

Temos nosso arquétipo, o qual não está inserido diretamente no contexto africano, tais mitos não fazem parte de nosso consciente coletivo, não estamos dentro desse cenário, por lógica esse moldes foram acoplados à nossa personalidade por vivencias mais atuais, pelo ambiente em que se foi educado e formado, afinal nem todos os filhos de Ogum são pessoas violentas, todo filho de Xangô é gordo e todo filho de Oxóssi é magro e introspectivo, alias sou a prova viva disso. 

Assumir totalmente o esteriótipo de nosso pai e de nossa mãe, não é a forma mais saudável de reconhece-los, vamos lembrar que a nossa reforma intima é constante, é a luta diária contra nossos instintos mais bruscos, apresentar tonalidade explosiva por ser filho de Ogum ou de Iansã não é motivo de orgulho, alias está ai a grande prova para o filho de fé, se bem sabem que tem essa tendencia, e que também sabem que isso não faz parte de seu arquétipo, sua verdadeira luta estará em conter tais características sua reforma intima agora já pode ser melhor margeada.

A formula é simples porém a aplicação é difícil mas vai uma frase que ouvi essa semana do meu grande amigo Cláudio, e que pode ajudar vocês a lapidarem seus próprios instintos. 

"Foque nos seus aspectos positivos e apenas corrija aquilo que não é".

É isso meus amados irmãos, que meu pai Oxóssi ilumine a caçada de todos vocês. 

11 de mai. de 2012

PAIS E FILHOS



Se pararmos para pensar, o que somos hoje é resultado do que vivemos em todos os dias anteriores, das pessoas que conhecemos, lugares que frequentamos, enfim, nosso presente e futuro são frutos de nosso passado.

No último dia 21 de Abril fui convidado para a reabertura da Federação de Umbanda Caboclo Cobra Coral e Iansã, uma Casa que para mim e para todos os membros do Portal dos Orixás (Templo que ajudo a dirigir) e até para você, amigo leitor que aprecia o que é escrito nesse blog, tem significado especial, pois foi ali que se edificou grande parte do que eu, meus irmãos e minha Mãe de Santo somos hoje e, com isso, o Templo que cuidamos. Todo o nosso conhecimento e firmeza tem como base o que aprendemos ali.

Era festa de Ogum, um grande retorno depois de quase 4 anos sem sessões naquele pequeno terreiro, também fazia praticamente o mesmo tempo que eu não pisava ali - foi quando comecei a faculdade e as tarefas no Portal dos Orixás se tornaram mais árduas. Adentrei na casa junto com meus filhos, mãe e irmãos e pude rever pessoas muito importantes para mim, dentre elas meu padrinho Petrolino e a minha madrinha Maria, pessoa que me deu um dos conselhos mais profundos para meu desenvolvimento espiritual: "se segure firme, porque assim os Guias fazem mais força para agir e ficam mais presentes. E nunca mude, você é o que Deus quer e se orgulhe de suas virtudes sem ficar vaidoso".

Já deu para sentir o quão pequenino eu era ali naquela casa, não? E eu estava feliz por isso. Feliz por estar lá como filho, como aprendiz observando os grandes trabalharem com a garra de meninos. Uma viagem ao passado, me via uma criança novamente com minhas dúvidas e aquela euforia por saber quem eram meus pais de cabeça, Orixás protetores e demais linhas. Um garoto ávido por conhecimento cantando e batendo palmas, com os olhos brilhando a casa manifestação espiritual, aquela Cláudio que chegava em casa depois da gira comentando com os irmãos "Meeeeeeu, eu quase ão lembro de nada! Como o baiano dançou o hoje, você viu?". Eu estava feliz por não ter comigo a responsabilidade de ser um pai de santo.

Mas nada é como a gente imagina. O dever que nos é conferido pelo astral não pode ser abandonado, sequer temporariamente. Quando a gira começou tudo estava diferente, eu era outra pessoa, uma versão diferente do Cláudio de outrora, mais duro e atencioso, chamando a responsabilidade para mim da mesma maneira que minha Mãe de Santo e meu irmão, Pai Peninha. Os olhares eram inquietos sobre nossos filhos que nos acompanhavam, queríamos saber se estavam bem, se estavam firmes e se precisavam de algo. A gira seguia e eu não me sentia filho como eu queria, eu era ali um visitante na casa em que um dia fui hóspede.

Saí de lá com uma certeza: eu estava feliz. Não da maneira que eu esperava ficar, mas feliz por ter o que eu tenho, por ter sido escolhido pelos Orixás e recebido deles filhos ímpares que, via de regra, me fazem querer largar tudo e desaparecer e logo em seguida aplaudi-los de pé por seus acertos. Estava feliz por poder enxergar as coisas com mais clareza, por ver que sou um bom produto de de minhas experiências - principalmente as negativas como as passagem de Belzebú e a festa de Exú de quatro ou cinco anos atrás, fatos que prometo um dia contar a vocês. Principalmente fiquei feliz por rever grandes amigos e poder, novamente, me espelhar em sua sabedoria.

Umbanda é isso, é visão, admiração e uma surpresa a cada dia.

Axé.

8 de mai. de 2012

As diferenças que nos tornam iguais.




No ápice de meu 7º semestre na Universidade,  depois de 4 anos tomando lugares no fundo da sala, fazendo amizade com as figuras mais comentadas na sala dos professores, com o nome no trendtopics da coordenação do curso e odiado pelos colegas das primeiras fileiras, algo inusitado começou a ocorrer num dos semestres mais tensos do curso. O clima de formatura, a banca de TCC, as provas sem fundamentos que já nos eram aplicadas, o verão em seu máximo no começo do ano, enfim o clima de cansaço e de término estava muito presente no ambiente. 

Dando características que a classe pouco tivera no decorrer desse longo período de estudo, as pessoas interagiam mais, fundão, nerds e pessoas sérias agora já conversavam, riam e reclamavam sobre as mesmas coisas, os que eram odiados no fundo, aos poucos tiveram sua tonalidade de graça, de comentários engraçados, e acreditem tirar a risada de um nerd ou de uma pessoa séria é muito gratificante para os membros do fundão.  Todos ali olhando para um mesmo desafio, para um mesmo medo, o TCC e sua vida profissional. 

Pouco a pouco nesses momentos todas as tribos que podem existir numa sala de aula começaram a perceber o quão incomum são, todos com seus problemas, com seus trabalhos, com sua área de atuação, gostos por time, lugares para sair, lugares que já visitaram, musicas que gostavam de ouvir, festas, filmes, comidas, aquele coletivo nunca esteve tão homogêneo em seu aspecto ideológico, a classe nunca esteve tão unida, fosse em prova, fosse no starbucks, no bar, na balada, no terreiro. 

Ham ???

Sim no terreiro. 

Alunos e alunas engravatados, vestindo xadrez, da tribo do rock, do samba, do surf, os nerds, o fundão e até professores, foram surpreendidos por mais esse tom incomum de suas vidas. O santo, o atabaque, os guias, os orixás e a Umbanda.

Lembro me bem de uma situação, num momento pré prova, onde os que estudaram tentavam se concentrar, e os que não sabiam nem o que faziam ali procuravam lugares bons para se sentarem e irem bem na prova (Leia-se "lugar bom pra colar"), entrei na sala, sentei num lugar perto do meu grupo e ali fiquei esperando e observando toda aquela movimentação, como todo bom ansioso, comecei então a batucar na carteira e cantar e tom baixo:

"Quem rolas as pedra é xangô Kaô..." Quando fui surpreendido por um colega do meu grupo completando o ponto com.. " Flecha de oxóssi é certeira é...".  Isso me causou uma mistura de sensação na qual queria misturar uma boa gargalhada, com a vontade de cantar o ponto mais alto ainda com ele, não bastando essa surpresa, o ponto continuo sendo completado por mais um colega, que por sua vez me surpreendeu mais ainda. Era um dos alunos sérios, da primeira fileira e um dos que não gostava muito do engraçadinho do fundo que aqui vos fala. 

"Quem rolas as pedras é Xangô Kaô" (Eu, cantando um ponto, apenas para passar o tempo.)

Flecha de Oxóssi é certeira é ( Junê, do meu grupo  completando o ponto e mostrando se do santo.)

"É é é..." (Cláudio, o aluno sério da primeira fileira, que terminou o ponto e viu mais dois irmãos de fé ali.)

E foi através do ponto das 7 linhas, cinco minutos antes da prova de varejo, batucando na carteira como um aluno desencanado , que nasceu e firmou se uma grande amizade. O aluno sério da fileira da frente e o aluno que sempre azucrinou a aula no fundão, filhos de mesmo pai (Oxóssi), portadores da mesma fé, da mesma bandeira branca de Oxalá, do mesmo chão onde se bate cabeça e pede benção ao pai e a mãe.  

Diante disso, mais um elo na corrente umbandista foi selado, as visitas na Aldeia de Caboclos, na festa de Nanã a alegria de ter esse grande irmão na obrigação de Exu, e a felicidade de participar junto ao seu terreiro, da festa de meu pai Oxóssi, de seu pai Oxóssi, onde fui muito bem recebido e acolhido por seus amigos, familiares, filhos e filhas.  Mais um colega de mesma atuação profissional, um irmão de santo, um amigo. Deixo aqui com essa passagem a mensagem, de que Umbanda vai muito além das quatro paredes de um terreiro, do que o som dos atabaques e o brado dos caboclos. A Umbanda está em fazer das diferenças as igualdades, em tornar o quente e o frio, morno e confortável para o ser. A Umbanda está nas surpresas, nos surpreendimentos, na amizade e no respeito. 

E pelo aceite do honroso convite que recebi, aqui então me apresento como mais um autor do Ser Umbandista, deixando minha primeira mensagem nessas linhas reais que aconteceram num dia comum. Me chamo Rafael Arruda, sou filho de Oxóssi, sou Umbandista e  sempre sentei no fundão. Será um prazer estar com vocês e aguardem pois teremos muitas e muitas novidades. 

Axé pra quem é de axé.