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20 de set. de 2011

CAÇADORES DE AXÉ



Uma vez estava conversando sobre Umbanda com uma conhecida, estávamos no msn numa conversa agradável e despretenciosa enquanto ela falava de suas religiões: Umbanda, Quimbanda e Candomblé. Até aí tudo bem, eu estava aprendendo um pouco mais sobre as diferentes liturgias e culto aos Orixás quando fiz questão de falar que eu nunca havia passado por nenhum tipo de ritual de iniciação na Umbanda como batismo, feitura de cabeça, Borí ou coisas afins e mesmo assim conquistei o respeito das entidades de luz e os Orixás nunca haviam me cobrado. Nessa hora ela disparou: "Mas isso não acontecerá jamais, porque umbandista não tem Orixá". Não discuti, cada um tem a sua crença e não cabe a mim converter ninguém, até porque aprendi na Umbanda que não existe religião errada e nem religião certa, todas estão caminhando  - cada qual em sua velocidade - para a parfeição, assim como os homens que as formam. O certo mesmo é a religiosidade, não a religião. Deus é um só, não importando como ele é chamado ou em quantas personalidades o dividimos, somos parte dele e por isso considero Deus como sendo de tamanho e quantidade incontáveis.

Fato é que após aquela conversa - que se encerrou após aquela frase, diga-se de passagem - comecei a refletir sobre as motivações de cada um para aceitar uma ou mais religiões. Percebi que das pessoas que já falaram sobre isso comigo, apenas uma minoria escolhe uma religião para buscar Deus e outra fração ainda menor está numa religião porque já encontrou Deus e vai para compartilhá-lo com quem precisa. Já a fatia mais farta engloba as pessoas que tem medo do destino de sua alma caso não faça parte de uma ceita, seja ela qual for. Neste meio também contabilizei as pessoas que buscam uma solução para a sua vida, que querem se livrar de dívidas, de brigas e outras coisas mais. São os que vão em busca de milagres e que em sua maioria acreditam que simplesmente estando dentro de um templo, orando ou pedindo a um Orixá as coisas acontecerão.

E há tembém o grupo mais curioso, o das pessoas que desejam sentir energias que as balancem, que almejam participar de toda sorte de rituais que lidem com as forças mais densas possíveis, não importando a finalidade, elas querem é sentir o Axé. São os "Caçadores de Axé". São pessoas que infelizmente acabam no Candomblé guiados pela riqueza ritualistica dessa religião maravilhosa, que pela sede de poder que as magias milenares da Mãe África traz acabam maculando a imagem dessa religião. Não raro essas pessoas dizem "Umbanda? Isso aí é fraquinho demais para mim, é tão parado...". Ou então imploram para adentrar numa corrente e desenvolver sua mediunidade porque acham muito legal perder o controle do corpo.

Para que isso? Quem quer agitação, vá a uma festa. Quem quer perder o controle do corpo, basta ir a um beco escuro. Sei que lá haverá alguém com um pacote pequeno que, por um preço, resolverá a sua vontade de descontrole. Tudo é questão de foco e o foco da Umbanda é a caridade, é a doação.

Se você entrou ou quer entrar para uma religião pense bem o que você deseja dela e o que ela promete lhe dar. Até hoje a Umbanda não me prometeu nada. E foi por isso que a escolhi.

Axé.

2 de set. de 2011

BRAVO SENHOR!



Vez ou outra eu paro pra pensar: "Nossa, tenho 25 anos e sou um líder espiritual para uma série de pessoas". De fato sou, não por querer, afinal de contas o título e o ônus me foram outorgados pelo astral e tenho que dar o meu melhor para fazer as pessoas felizes e capazes e assim as engrenagens da vida e da espiritualidade continuarem girando. Penso sobre liderança, em como motivar as pessoas e mantê-las nos trilhos certos, mas mesmo assim algumas pontas acabam escapando inevitavelmente. Como a ponta do meu pai - de sangue mesmo e cambone da casa - que foi vencido pelo alcoolismo a vida toda, se recuperou clinicamente, se perdeu de novo, se reencontrou na fé umbandista e foi tombado novamente pelo vício.

Com ele aprendi a ser homem, nele tenho um exemplo de fé irrefutável a seguir e por isso me frustrei ao saber que estava caindo em derrotas novamente. Que filho sou eu que não consigo ajudar meu pai? Que pai sou eu que não consigo ajudar meu filho? Se me elevaram ao grau de pai é porque eu tenho o dever de agir quando um filho necessita, não é? Senti que ia falhar, que não conseguiria ajudar meu filho a vencer um vício que o derrubava há anos.

Foi então que Zé Pilintra apareceu. Dr. Zé Pilintra, Sr. Zé Pilintra. Veio virado pra ajudar um outro filho que padecia, mas depois foi até meu pai para terem uma conversa. Seu Zé me deu parte de consciência ali, talvez para me mostrar como se faz ou para me dizer que ele estava lá durante todo tempo e sempre estará quando eu precisar. Não consigo me lembrar das palavras, mas sentia a veemência delas retumbando em meu pai/filho, os olhos dele brilhando marejados de lágrimas, era como se Seu Zé o tocasse por dentro e retirasse o medo e só deixasse coragem, assim ele não mais se esconderia atrás de uma garrafa.

Forte, direto e bravo, um Bravo Senhor. Jamais me esquecerei daquela aula que tive e que culminou com uma sessão de descarrego na qual Ele gingava capoeira e quebrava as demandas. eu não vi, mas senti tudo aquilo e os poucos que viram guardam segredo da solenidade do momento. Mas algo que vi ontem eu faço questão de contar e mostrar.


MOJUBÁ: "Graças ao meu padrinho estou limpo de novo. Agradeço a ele e todos os amigos dele...
MOJUBÁ: "O importante é ter fá porque somos movidos por ela"

Recados que ele deixou em meu orkut. Naquela hora a nuvem em minha cabeça se dissipou, era Deus agindo, Sr. Zé Pilintra trabalhando em nome dele.

Axé.



25 de ago. de 2011

PENINHA



Sábado passado estávamos aos pés de uma árvore, debaixo de chuva e frio. Um grupo de cinco amigos e quatro corpos, três das quatro pessoas que mais me defenderam no terreiro e um dos Orixás que mais sofreram comigo ali. Meu pai, minha mãe, Sr. Marabô e o Peninha. O Pai Peninha.

Eu e o Peninha temos uma afinidade que transcende o físico, ultrapassa vidas. A gente se entende desde garoto, no passe de bola, nas piadas, nos protegíamos nas brigas, dividimos o mesmo quarto e trabalhamos juntos por muito tempo, meus pais o amam tanto quanto a mim ou qualquer um dos meus irmãos e na Umbanda não poderia ser diferente. Iniciamo-nos praticamente ao mesmo tempo, ajudamos  - mesmo sem saber o que estava acontecendo - a fundar a casa que hoje todos chamam de Portal dos Orixás, para nós era somente uma reunião entre amigos para compartilhar da Luz dos Orixás e ceder a eles o nosso corpo.

Vibrei quando seu desenvolvimento evoluiu e seus guias começaram a proferir as primeiras palavras. Certo dia numa sessão no quarto da casa de nossa Mãe seu preto velho foi embora e ele se sacudiu, comemorei como se fosse um gol em final de copa do mundo: "Você viu aquilo? Viu?!" Éramos crianças crescendo e até hoje me sinto meio juvenil perto da simplicidade com que Pai Peninha me mostra as coisas da vida, logo eu que me gabo de ser articulado com as palavras, vejam só.

Já o odiei, confesso. Odiei nas vezes em que ele faltou numa gira e me deixou sozinho lá sem aqueles repiques de atabaque, sem aquela voz estridente a me acompanhar nos pontos, sem aquele sorriso rechonchudo quando tudo dá certo, sem as preces puras de coração no fim de cada gira.

Num momento qualquer de dificuldade foi ele quem me deu a lição que prego a todos aqui: "Cara, seu compromisso é com os guias e com quem precisa de ajuda. Entra, faz o seu e sai, Oxalá está vendo tudo isso". Aprendi tantas coisas com ele... inclusive que estou me tornando um bobo sentimental.

Molhei meu teclado. Axé.

15 de ago. de 2011

MARABÔ



Sábado temos duas festas no templo: Omolú e Exú. Para mim é uma data muito especial, data de minha morte e renascimento enquanto umbandista, marca o dia em que aprendi o valor e o significado da palavra lealdade, marca a frase que para mim fio a mais certeira das profecias: Sr. Marabô dizendo: "Sou eu quem limpo a sujeira, logo tudo o que prego será comum aqui". Naquele dia, quando meu pai (e cambone da casa) me contou da frase eu - ainda cego de mágoa - nem liguei, praticamente pense "E daí? está tudo acabado mesmo...", mas o tempo me provou o contrário. O tempo e o Sr. Marabô.

Enquanto reclamavam que ele mantinha abertas as cortinas do congá na linha de Exú, ele dizia: "Sou filho de Deus igual a um Caboclo ou um Preto-Velho, por que eu temeria essa luz? E mesmo que eu temesse, por acaso essa cortina tem algum poder mágico capaz de barrar a Luz Divina? Então deixe-a aberta, por favor"

Exú falando em Deus? Para muitos aquilo era o maior dos absurdos. Ele rebatia: "Ai de mim se não lembrar a todos quem manda aqui". Nesse mesmo ano ele entrou na capela do cemitério, se ajoelhou e orou.

Quando ele assumiu a tarefa de fazer descarregos no templo, disseram que era loucura, que tanto ele quanto eu estávamos passando dos limites. Talvez só eu, pois as afrontas aos costumes retrógrados eram tão grandes que Exú nenhum faria aquilo sem a "influência" de um jovem Pai-pequeno. Ele interveio: "Esses eguns acabam todos na minha banda mesmo, só estou fazendo o meu trabalho diante de seus olhos".

Nasceu a lenda de que Exú não come sal: "Me dê um punhado de sal... viram? É apenas sal, seja na minha boca ou na sua", falava ele enquanto comia pedras de sal grosso.

Hoje sou grato a ele por me ensinar a dar a volta por cima e ter paciência. Chegue lá em casa e veja se alguém estranha as cortinas abertas, descarregos na linha de esquerda, comida com sal ou o nome de Deus sendo citado por um Exú. É tudo coisa comum lá...

E por incrível que pareça ele é o único Orixá que vi até hoje pedindo desculpas a alguém por algo que não deu certo. Com isso aprendi que perfeito é só Deus, mas aprendemos com todos.

Eu poderia escrever horas aqui falando como é o Sr. Marabô, suas vestes, presentes que ganha, lendas de suas outras vidas e tudo mais, mas prefiro falar de seu legado. É assim que se definem os grandes caráteres.

Axé.

8 de ago. de 2011

DESAPEGO



Quando Jesus disse "Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus" minha compreensão não se limitou à relação entre a riqueza e a salvação, acredito que Ele estava se referindo ao desapego das coisas e sentimentos carnais e só assim as portas do paraíso se abririam.

Não é fácil desenvolver esse desapego, nós mesmo levamos inúmeras encarnações para aprender e outras incontáveis para colocar em prática, mas uma coisa é certa: o desapego é essencial. Se libertar das mágoas que nutrimos contra aqueles que nos faltaram - sejam estes carnais ou espirituais - e se livrar do apego excessivo naquilo que pertence somente à terra, como o ouro e a carne é realmente de extrema dificuldade porque já nascemos sob uma cultura que prega a propriedade privada, vivemos sob o mantra do individualismo e de uma hora para outra simplesmente abandonar tudo aquilo que acreditamos para receber coisas intangíveis, invisíveis e (para os ateus) infundadas, como o amor e a salvação parece até loucura. E quando falamos que é mais recompensador doar do que receber? Loucura total! Impossível de fazer.

Não se muda da água para o vinho num piscar de olhos, é um processo gradativo. Comece se desapegando de algumas idéias, de certos dogmas como o de que um Orixá não erra, por exemplo. É uma questão de lógica: perfeito e soberano é apenas Deus, fora isso todas as criaturas da eternidade estão sujeitas a falhas em menor ou maior grau. Parece loucura, não é? Mas aceite isso e reflita, verá como seu horizonte se expandirá um pouquinho mais. É o primeiro passo.

Após isso tente traçar uma linha que divide seus sentimentos internos e externos ao templo, tente ter o mesmo e máximo amor, respeito e ternura por todos mesmo que um desses seja seu desafeto fora da casa. Ficará mais leve com esse gesto de grandeza e semeará a tolerância em muitos ali, tenho certeza.

A vida e o templo são como construções: vão crescendo a cada tijolo bem assentado.

Axé

27 de jul. de 2011

AOS MEUS FILHOS




Essa semana foi especial para mim, recebi muitos feedbacks de amigos, filhos de santo e ex-filhos de santo sobre a minha postura no templo e maneira de conduzir a casa. Os comentários variaram desde a frieza e distanciamento até a seriedade, comprometimento e amizade sincera com os filhos. Passei a refletir sobre isso.

No post passado dissertei sobre a impessoalidade das grandes casas frente à fraternidade das menores e é fato que o Portal dos Orixás tem nome grandioso e estrutura modesta, então será correto o meu distanciamento? Percebi que a resposta não é exata como um sim ou um não. Fato é que o ser humano vive de comparações: meu cachorro novo frente o meu antigo, minha namorada é ou não mais companheira que a minha ex, meu pai de santo é mais legal que minha mãe de santo? Enfim, estou encabeçando a equipe do portal recente e provisoriamente e é natural essa comparação. Afinal por mais que o discurso seja de continuidade, eu tenho visão diferente sobre a Umbanda e o trato com as pessoas em relação à minha Mãe de Santo. Já disse que não tenho o mesmo carisma ou a mesma candura dela, contudo ambas as fórmulas são de sucesso, cada qual para o seu público e não é a toa que sempre que há essa troca de gestão há também certo êxodo de fiéis e o retorno de outros. Há quem prefira o meu método e quem o deteste, tudo é uma questão de ponto de vista.

Não sou do tipo que deixa os filhos voarem prematuramente para novas e grandes jornadas, para mim o preparo é fundamental e ele vem com base na rigidez da educação cívica e religiosa em que os responsáveis pela espiritualidade figurativamente espremem os filhos. Não tenho dó de combater crendices inúteis, retirar os atabaques para que eles firmem suas cabeças no difícil silêncio, observo os erros e pergunto se sabem a forma certa para ver se a resposta será ou não verdadeira e, se mentirem, os ensino a maneira correta na frente de todos. É assim que eu vejo a criação de médiuns fortes e pessoas sensatas. eu chamo isso de médium cascudo, musculoso, firme, voraz.

Mas não sou tão duro assim. quem me olha no terreiro vê mais sorriso do que siso. Sou próximo de cada um ali, faço questão de ir cumprimentar a todos e congratulo sua evolução. Também seu pedir desculpas quando eu erro e principalmente quando o terreiro erra. E já errou muito com muitas pessoas que hoje me ouvem com mais atenção principalmente quando eu peço que voltem para o seio de seu lar espiritual, que sigam conosco para fazer do Portal dos Orixás uma casa unida e forte e assim multiplicarmos o poder da caridade. Aos meus filhos eu confesso: posso não ficar na sua casa perguntando dos seus problemas, posso não te convidar para batizar meu filho ou para ser padrinho do seu, posso não ir te visitar, posso não te ligar todos os dias, mas eu conheço seu sofrimento e oro por você todos os dias, pela sua família, por sua coroa e por sua proteção. Oro para que você esteja preparado para enfrentar os perigos de fazer o bem e que se sinta feliz por isso.

Este post é para vocês.

Axé.

16 de jul. de 2011

BONSAI E EUCALIPTO



Certa vez uma mãe de santo começou a se gabar de que sua casa estava se tornando uma potência regional, com mais de 50 filhos e com seu nome sendo espelhado pela cidade. Eu sempre me esforçava para colocar seus pés no chão, dizendo que o bom é permanecer pequeno. Um dia então a "Mãe da Potência" teimou em tirar o CNPJ da casa e querer se filiar a uma federação enquanto eu insistia que não era necessário já que a Constituição Federal nos assegurava o direito ao culto e reunião e que o CNPJ só daria o direito à isenção de IPTU enquanto os gastos aumentariam com contabilidade, burocracias em geral, declaração de patrimônio etc. Não satisfeita foi procurar a opinião do sábio Pai Ronaldo Linhares, presidente da FUBABC, que de cara perguntou sobre a casa. ao ouvir a resposta, disparou de forma simples, sem a mínima soberba: "Ah, então vocês são uma casa de pequeno porte, não precisam se preocupar com essas coisas. A constituição assegura direito ao culto, porque 50 pessoas é apenas uma reunião. As casas de grande porte, com centenas e até milhares de filiados devem se preocupar com isso por causa da complexidade da estrutura..." Presenciei aquele diálogo e vi a Mãe-de-Santo voltar ao planeta terra e seguir sua obra humildemente.

Mais recentemente, em conversa com um filho de santo que visitou várias casas nos últimos meses, fiquei sabendo que entre as casas visitadas estava um colégio de Umbanda e magia muito conhecido, que fica no bairro do Belém, em são Paulo. entusiasmado, perguntei:
 - E aí, como foi lá?
 - Pai... ma droga! - respondeu ele em tom sereno.
 - Por que?
 - A casa é grande demais, os visitantes nem podem presenciar a gira, partilhar das energias. Chegam na ante-sala e pegam uma senha para aguardar o chamado para o passe, de lá vão embora.

A conversa tomou outros rumos, mas depois refleti sobre o crescimento exagerado da obra umbandista. A Umbanda é uma religião de contato, de proximidade, é um lugar no espaço onde os aflitos podem sentir as energias se propagarem, podem dialogar com os mentores, lugar onde há um discurso para cada caso, onde há explicações para os problemas das pessoas. Crescimento demasiado gera impessoalidade. Não consigo imaginar o Portal dos Orixás com 800 filhos, gente entrando e saindo sem que eu saiba o nome, de onde vem, para onde vai e porque está na Umbanda. Sou feliz por conhecer cada filho e saber onde e quando afagar ou apertar o cinto deles.

A Umbanda enquanto árvore, tem a obrigação de dar frutos e se multiplicar, mas isso não quer dizer que deva crescer exageradamente. Ainda na metáfora da árvore, veja os eucaliptos como são grandes e sem graça. Agora imagine um bonsai japonês, pequenas árvores cultivadas nesse tamanho durante décadas, que mesmo nanicas florescem e dão frutos.

E então, sua casa é um bonsai ou um eucalipto?

Axé.