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23 de dez. de 2013

CINEMARK Ofende Afro-Religião




Não gosto de ser apelativo, quanto a divulgações e compartilhamentos dos textos do Blog, como profissional da área acredito que isso tenha que acontecer de forma natural, o engajamento surge com o tempo e com a dedicação de nós autores.

Mas pela primeira vez peço que compartilhem, postem, divulguem e gritem com todas as forças, como um brado de caboclo, essa postagem. 

Neste último domingo, 23/12/2013, minha namorada e eu estávamos passeando pelo Shopping Eldorado em São Paulo, fomos até o Cinemark ver os filmes que estavam em cartaz, para nossa surpresa encontramos uma ação de marketing que nos horrorizou, algo completamente preconceituoso, triste e muito mas muito mau elaborado, deixo aqui minhas claras críticas sobre esse trabalho extremamente racista e que contribui muito para que nos umbandistas e candomblecistas sofram com preconceitos e represálias.

As fotos abaixo mostram a ação que tanto repudio, o filme o qual está sendo divulgado através dessa ação preconceituosa é chamado: "Atividade Paranormal - Marcados pelo mal"

Bom, a única marca do mal que encontramos na nossa sofrida religião, é o preconceito, que dessa vez já não mais pautado pela ignorância mas sim pela malicia do capitalismo em vender mais e mais e em atingir as metas de bilheteria, ao custo do nosso suado esforço religioso em levar a caridade ao próximo. 


Vejam que foram colocados, alguidares, farofas e pimentas. 

Um espelho, fios de contas, todos fazendo alusão a magia negra, a maldade, a tudo o que reprimimos e lutamos contra. 

O Cinemark e a agência responsável pelo Marketing realmente deu o maior tiro no pé do ano, uma por aprovar tal ação e outra por propor algo tão repugnante e por sua produção.



Velas pretas e vermelhas, velas amarelas, fios de conta azuis, velas amarelas de sete dias. 

Artefatos que fazem parte do nosso cotidiano ritualístico, da nossa tradição e da nossa cultura.

Obviamente que em defesa de tal atrocidade as empresas responsáveis por isso irão alegar que da mesmo forma que podemos utilizar isso para nosso culto religioso, pessoas com intenções diferentes da nossa podem utilizar tais objetos na pratica do charlatanismo, na prática de magia negra e outra qualquer desculpa. 

Porém se seguirmos essa linha de raciocínio, seria o mesmo que ao fazer um filmes sobre pedofilia ou corrupção utilizarmos uma batina católica, ou algo que faça referência a igrejas protestantes, certo ? 

Já que muitos padres utilizam de seus objetos e cargos religioso para a prática de crimes também. 


Quem tiver estomago para ver a grande promoção do Cinemark é só dar um pulinho no Shopping Eldorado, fica próximo a estação de trem Hebraica-Rebouças. 

Aqui está o link da página do Facebook dessa promoção criminosa e racistas, mais uma vez peço que com todas as forças, mostremos quem somos e que não aceitamos mais esse tipo de comportamento. 

Facebook: https://www.facebook.com/AtividadeParanormal

Que Oxóssi e Iansã cubram todos com muita luz e muito Axé.

"Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito."
Albert Einstein


17 de dez. de 2013

A escola da dor.


Por tempos aqui não escrevo, não deixo aquelas velhas e medianas linhas, com um pouquinho do que. insignificantemente aprendo no decorrer dessa minha jornada na terra. 

Muito se fala aqui sobre, caridade, evolução, ajuda, mediunidade e lições da vida, escrevemos um pouco aqui daquilo que cotidianamente acontece em todos os lares, com todas as pessoas, do rico ao pobre, do mais esclarecido ao mais ignorante, falamos aqui daquilo que acontece, com crentes, católicos, evangélicos, umbandistas, candomblecistas, budistas e todos os istas que puderem imaginar. 

Pensamos, organizamos e explicamos idéias que qualquer um pode seguir, aplicar e praticar na sua vida, deixamos aqui nosso mero e humilde exemplo, nossa breve historia diante do infinito. 

Deixamos aqui aquilo que acreditamos, aquilo que queremos que seja jogado ao vento e espalhado para os quatro cantos, pois é essa a forma mais preguiçosa que encontrei hoje de fazer muito menos do que devo, de fazer o minimo perante aquilo tudo que recebo todos os dias ao acordar. Que de maneira bem hipócrita deixo somente o bom exemplo, mas que escondo minhas quedas e falhas. Acredito fielmente que vocês aprenderiam muito mais com esses exemplos do "o que não fazer", do que com o "o que devem fazer".

Distante de mim querer ensinar aos outros aquilo que se deve ou não fazer, deixo apenas meu exemplo, minha história. 

E ai está o ponto, minha história. 

Construída e destruída todos os dias, começada e terminada constantemente, repleta de erros e acertos sortudos guiados por aqueles que nos protegem, não muito diferente da sua história, não tão longe da realidade de vocês que ai estão do outro lado da tela. 

Você também, um ser que assim como eu, carregado de instintos, traumas, falhas e personalidades, vícios e virtudes se reformam todos os dias. Assim como um diamante que precisa ser lapidado, nós pobre humanos somos lapidados todos os instantes a todas as falhas que nos resultam no sofrimento escondido que trazemos no mais fundo de nossas almas. 

Aquilo tudo que jogou num lodo escuro e denso, aquilo tudo que fere calado, que ficou no passado, e que hoje soma a sua personalidade certo traço, ora bom, ora ruim. Ruim pra você mesmo, ruim pra nós mesmo, nossas provas, nossas aflições. Nosso maior presente. 

Que não soe masoquismo, muito menos um breve lapso de martirismo barato, mas sim tudo aquilo que nos mata, nos machuca e que por fim trás o tão temido sofrimento, é o nosso maior presente, aquilo que Deus nos guardou como o melhor remédio, o xarope amargo e eficiente para a cura. 

Somente através do instrumento da dor que abriremos os olhos do espirito, as janelas da alma, somente no escorrer das lagrimas purificaremos nosso ser, limparemos nossa alma. Não há passes nem livros, muito menos doutrina e religião nenhuma que o cure, se não o sofrimento. É na escola da dor que aprendemos a lição exata daquele momento, mesmo que muitas vezes cego estaremos, que nada enxerguemos e a única alça que iremos ver no sofrimento é a revolta, apenas respire e traga para dentro de si, toda aquela dor, sugue aquilo como o último gole de vida que tens, mastigue e se alimente daquilo vagarosamente, para que consiga digerir tudo, peça a luz e o esclarecimento caso não consiga entender ou aprender com aquilo que sofre.  Cedo ou tarde irá realmente se curar, sentir o efeito do remédio mais santo do mundo. Entenderá o perdão, a compaixão, entenderá o outro e assim o amará, como amará a ti mesmo. 

No caminho da resignação não há treva que perdure, aceite e confie, respira e entenda, olhe sempre para a causa ao invés de enfatizar a consequência, humildemente irá ver que a causa primária de tudo o que passou sempre esteve em você e assim poderá tirar a culpa do mundo e de Deus. 

Essa é a dura e árdua tarefa da Reforma íntima.

Que Oxóssi e Iansã abençoe a todos.


11 de dez. de 2013

Crônicas de Iemanjá. Parte 1: Os convites e os Sonhos Desfeitos

Congá da festa de Iemanjá do Portal dos Orixás em Itanhaém
Esse foi o congá mais bonito que já fizemos
Olá irmãos, como vão todos? Quem acompanha o blog Ser Umbandista e também a nossa página no Facebook conhece muito do nosso dia-a-dia e sabe que eu dirijo um centro de Umbanda chamado Portal dos Orixás. Sabe também que no dia 7/12/2013 foi a nossa festa de Iemanjá, em Itanhaém-SP. A festa foi tão boa, mas tão boa que eu a considerei a mais linda e gostosa já feita pelo terreiro a que pertenço, por isso resolvi fazer algumas crônicas para que você, leitor que infelizmente não pode comparecer, possa compartilhar da emoção que vivemos ali naquela praia.

Parte 1: Os convites, os convidados e os sonhos desfeitos.


No começo de Janeiro eu já sei quando será a festa de Iemanjá, a única do ano feita fora de nosso templo. Sei porque sou eu quem faço o calendário anual, sei porque tradicionalmente ela é realizada no fim de semana mais próximo ao dia 8 de Dezembro, dia em que nós umbandistas celebramos a Rainha do Mar.


Sou um homem extremamente planejador, é uma característica que não consigo abandonar. Se tenho algo importante para fazer, vou planejando isso com cuidado, idealizando tudo no decorrer do tempo até chegar a tal data. Contudo, idealizar nos afasta da realidade e seus percalços e, com isso, vem a decepção. Sempre é assim, imagine com uma festa tão importante para o templo e para a própria Umbanda?

Cada gira é um ensaio, uma oportunidade de deixar os membros da irmandade preparados para enfrentar uma noite inteira de vibração, incorporação, passes e cânticos, tudo isso com os pés na areia sentindo diretamente as forças do mar que está ali há poucos metros de distância. Pode parecer que não, mas o sacrifício é enorme.

Eu idealizo o trabalho como um momento de celebração entre pessoas queridas do terreiro, com todos os filhos reunidos, amigos e irmãos de fé. Todos juntos, colaborando com seu tempo e força de vontade para que a gira seja perfeita. Por isso é que na medida em que a festa se aproxima, eu banco o chato e saio convidando um por um. todas aquelas pessoas que vem a mim ou ao centro em busca de conselhos e ajuda, filhos que saíram da casa por vários motivos distintos e que sempre dizem morrer de saudade, amigos que simpatizem com nossa filosofia etc. Todos respondem animados que adorariam ir.

Quando falta um pouco menos de tempo, aqueles que deram certeza, já respondem algo do tipo "Estou louco para ir, mal vejo a hora! Só preciso acertar mais algumas coisas aqui..."

Há alguns dias da festa há um misto de misterioso silêncio com respostas assim "Opa! Só me fala como chego lá. Não sei que horas vou, mas eu te ligo quando estiver no caminho".

No dia da festa 90% das pessoas  que você convidou, desmarcaram. Os outros 10% sequer dão satisfação e você alimenta - mesmo depois de dez anos vendo e revendo este filme - a esperança de ter a companhia dessas mesmas pessoas, que você convida ano após ano sem obter êxito algum, na celebração que seu terreiro arquitetou durante um ano. Eu mantenho o celular ligado durante todo o dia para o caso de alguém telefonar dizendo que se perdeu, acreditam?

Isso tudo vem da minha necessidade de compartilhar com as pessoas aquilo que me faz bem e acabo me esquecendo que nem todo mundo sonha como eu ou sente o que sinto quando estou diante dos atabaques. Para cada um a Umbanda tem um peso, uma importância e é nessa hora que podemos medi-la sem ruídos. A festa está aí, a oportunidade também, só não vai quem não quer ou não se importa.

É nessa hora que fico triste, que começo a pensar que ninguém vai, que a festa será uma porcaria história, a pior de todos os tempos. Me precipito no caos e na desilusão, no medo da rejeição e do que o exército de dedos julgadores irá falar  de mim, das minhas ideias e filhos. Mas Iemanjá é soberana e sempre dá um jeito de me surpreender e me fazer entender coisas novas sobre a via.

Mas isso fica para a próxima história. Axé!

2 de dez. de 2013

Na Umbanda, Menos é Mais


Olá irmãos de fé, como vão? Mais uma vez peço desculpas pela falta de textos nas últimas semanas. Este "silêncio" tem sido motivado por uma grande mudança no templo que dirijo, pois estamos nos mudando de Itanhaém, cidade em que atuamos há quase 10 anos, berço de nosso terreiro e sede de nossa irmandade desde 2007. Isso causa em mim um sentimento meio difícil de explicar, mas prometo escrever sobre este tema futuramente.

Contudo o tema deste texto nasceu justamente em uma conversa acerca desta mudança. Neste fim de semana a família estava reunida na casa de minha irmã e Mãe de Santo, todos - meu pai, minha mãe, minha irmã, meu irmão (que já frequentou nossa casa) e eu - conversando à mesa quando meu irmão dispara:

"Na verdade vocês só finalizaram algo que já estava morto há tempos, né! Só tem dois gatos pingados na assistência e 4, 5 médiuns..."

Ah meus irmãos, ele mexeu com o assunto errado na frente do cara errado. Naquela hora todos os presentes, exceto, claro, meu irmão, fizeram cara de "Ferrou, lá vem". Comecei a conversa dizendo que era para ele tentar se lembrar que aqueles gatos pingados que estavam na assistência da gira eram um casal de velhinhos que chegaram ao nosso terreiro sem a mínima esperança de encontrar uma solução para o problema de drogas que seu filho enfrentava há mais de 15 anos. Disse que, felizmente, aqueles 2 gatos pingados eram hoje 3 gatos, pois o filho já frequentava as nossas sessões e havia abandonado o vício. Depois daquele episódio houve mais um, com o neto que precisaria de uma cirurgia ainda na barriga da mãe em que ambos poderiam morrer, mas tudo deu milagrosamente certo.

Desdobrei o assunto para evitar ficar falando das graças alcançadas ou de pessoas específicas. Entramos no tema quantidade x qualidade e o lembrei que na época em que ele frequentava nossas giras a casa era cheia. Cheia de pessoas querendo mais dinheiro ou um emprego melhor, de filhos que só queriam saber de enfeitar os guias e nada de fazer a caridade. Se hoje estamos com um quadro infinitamente menor, temos o alento de ver trabalhos maiores sendo executados. Além, é claro, de tudo aquilo que acontece num plano em que nossa visão física não pode chegar, nos irmãos espirituais que rumam para nossa casa buscando ajuda, nos trabalhos desfeitos e também em toda energia positiva que geramos ali e que em seguida é encaminhada para pessoas necessitadas em toda parte.

Claro que é a maior alegria para um Pai de Santo ver sua casa cheia de filhos e de pessoas assistindo. Eu mesmo chorei feito criança na festa de Cosme e Damião deste ano ao ver tanta gente lá, mas quantidade nunca foi um indicador de sucesso para mim (e não deveria ser para casa alguma!).

Acho que meu irmão entendeu o que quis dizer e vai tentar ter um pouquinho mais de empatia nas próximas vezes.

E você, entendeu?

Axé!

6 de nov. de 2013

A história (engraçada) de como caí na gira depois de 10 anos


Olá irmãos de fé, como vão? Na semana passada, após muito tempo sem escrever aqui, achei que fiz um texto demasiadamente denso, árido, por isso hoje vou contar-lhes uma história de terreiro minha, talvez a mais engraçada de todas.

Considerem este como uma continuidade destes dois textos:

Recapitulando: eu conheci a Umbanda com 7 anos de idade, fiquei 10, 11 anos longe dela até me reaproximar de minha irmã e começar a ter contato com os Guias que ela recebia, me consultar, ficar curioso e cair na gira, ainda sem termos um terreiro.

É aqui que começamos de novo.

Éramos cinco - encarnados, sem contar os espíritos, claro. Minha irmã (também minha Mãe de Santo), seu marido na ocasião, a Daiane, o (Pai) Peninha e eu. Esses últimos três, inseparáveis e curiosíssimos sobre os propósitos da Umbanda, sua aplicação, história, limites, processos e rituais, tudo.

Mas antes disso quero que vocês entendam (e vislumbrem!) o cenário: não tínhamos um templo, não fazíamos rituais, sequer abríamos giras ou consultas. Éramos cinco. Seis na verdade, mas a irmã da Daiane acabou se mudando de cidade e pouco a vi nos últimos 10 anos. Como minha mãe (hoje minha filha de santo, assim como meu pai) não gostavam nada dessas "macumbarias", a gente se reunia onde e quando dava, quase sempre - vejam vocês - em um quartinho em forma de L adjunto à casa de meus pais. Minha irmã incorporava quase sempre o Capitão Alemão (marinheiro e entidade mais icônica de nossa casa desde sempre), vez ou outra suas Pombagira ou Sr. Severino boiadeiro e ficávamos conversando sem notar que o tempo passava.

Àquela altura eu já sabia que era protegido do Dr. Zé Pelintra (contarei isso no próximo texto desta série) e, cheio de coragem, decidi que iria me desenvolver. Lembrem-se de que estávamos em um quartinho, não estávamos de branco e nem nada. Naquela noite eu estava com uma bermuda de tactel azul e larga na cintura (era do meu irmão mais velho) que vivia sendo puxada para cima por mim afim de evitar o pior. Mesmo assim fui.

Eis que naquela hora minha irmã recebe o Zé Pelintra (um dos, são muitos e tal, todo mundo sabe, ela trabalha com o Seu Zé em raras ocasiões) que me coloca para girar com o Zé que trabalha comigo até hoje. Caí na gira novamente, era a mesma sensação de torpor de quando eu era criança, a mesma paz e energia, eu debutando na Umbanda e assumindo o compromisso que sustento até hoje, definindo o meu destino na irradiação de Sr. Zé Pelintra. Eu saí de mim, levitei espiritualmente e sequer me sentia girando. Foi lindo.

Lindo até eu abrir meus olhos, pois quando isso aconteceu vi a Daiane o o Peninha segurando o riso (em respeito aos guias, não à mim). Foi aí que olhei para baixo. Lembram daquela bermuda que citei? Ela estava no chão, cobrindo meus tornozelos, somente eles. Que vergonha.

Que bela maneira de incorporar um respeitoso guia de luz, não? Vai ver é por isso que não tenho vergonha nenhuma de de dizer  a todos qual a minha fé, de andar de branco por aí, de cantar ponto de Umbanda na rua, de ir pro emprego com uma camiseta com Orixá estampado. Eu já girei de cuecas, do que mais terei receio?

Alguém tem alguma história engraçada em relação à umbanda? Compartilhe com a gente!

Axé!

29 de out. de 2013

Umbanda: o legado moral dos negros e índios no Brasil


Olá irmãos umbandistas, como vão? Primeiramente eu gostaria de pedir desculpas pela falta de textos nestas últimas semanas, a questão é que eu escrevo aqui com base em inspirações diárias e para tanto eu preciso de um certo nível de quietude na alma e paz interior. algo que me escapuliu recentemente, mas acredito estar regressando.

Em uma de nossas últimas interações no Facebook, semanas atrás, eu pedi a opinião de vocês sobre o próximo texto e nosso irmão Leandro Panosso sugeriu que a conversa fosse sobre a herança cultural que nossos antepassados escravos e índios nos deixaram. Achei o tema formidável e fui pesquisar um pouco, mas a maioria dos achados já estavam presentes em minha memória e vida de forma muito cândida, muito apaziguada, como, por exemplo, a culinária, expressões linguísticas, costumes e superstições. O problema é que a gente acaba se esquecendo - ou sequer se preocupa em saber - de onde veio tudo isso e qual o custo dessa herança.

Parem para pensar um pouquinho. Se imaginem aí em suas casas, tranquilos numa bela tarde com a família quando, de repente, um bando de seres de cor estranha, língua desconhecida e roupas jamais vistas invadem sua vida, violentam suas mulheres, te prendem e te tiram o que mais lhe importa: sua liberdade, seu lar, sua pátria e família. Como você se sentiria ao perder tudo isso? E ao ver seus semelhantes morrerem nos fundos fétidos de um navio negreiro, hein? O que passaria em sua mente ao ter que jogar os corpos de sua família, morta há dias, no mar?

Revolta, não é?

Isso porque nem citei as humilhações passadas em terra firme, as barbáries que nossos ancestrais tiveram de enfrentar. Imagine este ciclo se repetindo durante séculos.

Mais revolta? Eu sei.

E depois da Lei Áurea veio a liberdade, mas a segregação continuou e perdura até hoje. Todos sabemos disso. e com os índios foi a mesma história também.

A Umbanda nasceu negra e índia. Mas como uma religião tão linda e pacífica como a nossa poderia nascer a partir de povos tão sofredores e que, segundo a nossa lógica humana, se tornaram tão revoltados?

A Umbanda, neste contexto, é a melhor resposta à minha pesquisa e à indagação do nosso leitor: o maior patrimônio que os negros nos deixaram não foi a culinária ou quaisquer outros costumes, foram seus ensinamentos, seu legado moral. O ensinamento de que por mais que sejamos castigados, humilhados ou dizimados, devemos nos erguer e continuar nossa luta pelo bem maio da vida terrena e eterna. Aprender não somente com nossos erros, mas também a não repetir as falhas alheias, pois não é porque fomos açoitados um dia que iremos açoitar o próximo.

O legado moral é e sempre será o nosso maior presente às gerações futuras, portanto questionem-se sempre por quais atos vocês querem ser lembrados e quais atitudes suas vocês desejariam ver seus filhos replicando.

Foi para isso que a Umbanda surgiu, para que os negros e índios nos mostrassem qual postura tomar diante de quem os açoitou: o perdão.

Então pratiquem sempre o bem e sejam felizes com a felicidade do próximo.

P.S.: vejam essas fotos do final da escravatura no Brasil http://bit.ly/1aEMXto 

2 de out. de 2013

Por que a cabeça do umbandista é sagrada?

"Cada cabeça com a sua sentença", o Ori é sagrado!

Olá irmãos umbandistas, como vão?

Em nosso último texto, citei os principais erros que levam o namoro entre irmãos de santo à ruína. Dentre os tópicos, mencionei o colocar a mão na coroa do médium e um irmão nos pediu nos comentários para que falássemos mais sobre isso fora do contexto amoroso. Então mãos à obra!

Por que a cabeça é tão sensível e importante para o umbandista?

A cabeça é sagrada não só para o umbandista, mas sim para a maioria das crenças que conheço. Alguns exemplos: 

  • O sétimo e principal Xakra, o Sahasrara é situado no topo centralizado de nossas cabeças. Segundo a tradição indiana, é através dele que recebemos a iluminação divina, o Sahasrara é também responsável por regular toda a nossa energia. Seu mantra é o Aum que nos remete ao sânscrito Aum-Bandhã que é relacionado às origens da umbanda. Clique aqui e saiba mais;
  • Judeus e muçulmanos cobrem suas cabeças em sinal de respeito;
  • O mesmo vale para os católicos, de forma mais aguda os Franciscanos que raspam o topo de suas cabeças.
  • No Candomblé a cabeça dos filhos de santo recebem sempre atenção especial em todos os rituais;
  • A cabeça é símbolo de conhecimento, de comando, de aprendizado e elevação do pensamento, de aproximação com a  Inteligência Suprema, em outras palavras, Deus.
Voltando à Umbanda, Orixá significa Energia de Cabeça (falei mais sobre isso aqui), mais um ponto que confirma o sacramento da coroa (cabeça, ori) do filho de santo. Como a umbanda tem essa característica de contemplar qualidades de várias religiões, todos os argumentos acima são válidos também para a nossa liturgia.

Por que não devemos deixar as pessoas tocarem nossa cabeça?

Por representar o ponto de contato entre a gente e o astral, o ori deve ser preservado, evitando-se que quaisquer pessoas não autorizadas o toquem. quando digo quaisquer pessoas, eu falo sobre todas elas, independentemente de sua religião ou intenção.

Da mesma maneira que recebemos energias por nossa coroa, emanamos por nossas mãos ou objetos que empunhamos, além do fato de sermos um subproduto de nossas intenções, ou seja, emanamos energias íntimas, produzidas de acordo com nosso estado de espírito, por esse motivo se alguém ficar muito tempo tocando nossas cabeças há o grande risco do choque de energias, o que nos desestabiliza emocional,espiritual e até fisicamente.

É por isso que eu, enquanto Pai de Santo, evito ao máximo o gesto de erguer a mão sobre o ori de um filho, porque durante a gira estamos de coroa aberta para receber as vibrações dos orixás e é só da energia deles que o médium precisa, não a de outro encarnado.

Há momentos em que a intervenção do dirigente se faz necessário, pois o médium pode estar sofrendo de algum bloqueio, contudo julgo mais saudável que ele aprenda a vencer essas dificuldades sob uma supervisão mais distanciada. Médiuns mais maduros nascem assim.

Gostaram do texto? Concordam? Discordam? Deixem suas opiniões nos comentários!

Axé.