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27 de mai. de 2015

O Homem Livre


Estou há um mês para escrever este texto, ele se baseia nas palavras do Sr. Marabô já no final de uma de nossas sessões de Umbanda, em nossa tenda do Santuário Nacional de Umbanda, no ABC.

Sr. Marabô estava conversando com alguém quando uma pessoa próxima disse, de um rapaz que acabara de sair da tenda, "Coitado, ele perdeu tudo e não sabe para onde ir". Naquela hora, o sábio Exu interrompeu a conversa e disse ao interlocutor, com seu charuto entre os dedos:

"Sorte dele ter perdido tudo, porque agora ele é livre. Eu tenho pena é do homem que ainda tem no que se apegar, porque ele vai morrer agarrado aos seus conceitos. este rapaz não, ele pode ir para onde quiser, fazer o que lhe der vontade. Por não ter mais nada, ele pode conquistar o mundo".

Eu passei todos estes dias refletindo sobre o quão apegados às coisas nós somos. e quando digo coisas, me refiro tanto ao material quanto ao intangível, ou seja, de roupas a ideias, de pessoas a mágoas, do dinheiro aos mais diversos sentimentos.

Se isso nos atrapalha na vida, pode nos atrapalhar no terreiro? Claro que sim. Porque o templo é um lugar de desapego, onde nós abandonamos todos os nossos laços com o visível, com o social, fraternal e amoroso, para simplesmente servir à causa umbandista, que é a caridade, o amor e a fé. se você entra no templo e bate cabeça sem este desapego, estará jogando fora a chance de aprender a ser alguém melhor, de ser um umbandista melhor. Você será sempre aquele sujeito limitado, que só tem um caminho a seguir: aquele delimitado por seus preconceitos, memórias, teimosias e mágoas.

Pense bem, você é assim? Você se liberta de tudo ao entrar no terreiro? Você é do tipo que não sente firmeza sem suas guias ou sem a roupa do seu orixá? Você é do tipo que só dá valor a uma gira se ela cumprir determinado protocolo?

Pense e nos responda.

16 de abr. de 2015

A Caridade Sempre Acontece

caridade na umbanda

Na última semana nos reunimos lá no Santuário de Umbanda para celebrar Ogum. Meu terreiro, para quem não o conhece, é muito pequeno, temos cerca de dez pessoas em nossa corrente e naquele dia estavam presentes apenas seis.

Antes de iniciarmos o desenvolvimento, conversamos sobre o último texto que postei no blog, falamos sobre as coisas que devemos ponderar antes de intervirmos na vida de alguém, seja esta pessoa necessitada ou não. Discorremos item a item do texto, conversamos sobre suas interpretações e aplicações no cenário real, sobre casos que vivenciamos e que se aplicavam neste contexto. Enfim, foi uma conversa muito proveitosa.

Gosto desses bate-papos antes da gira, porque eles nos ajudam a abrir a mente e a nos livrar de certos fantasmas. Muito além disso, quando estamos numa corrente bem firme, mesmo que apenas durante conversas, os espíritos bons nos acompanham e, enquanto falamos e mantemos a vibração alta, eles vão agindo com e através da gente, ajudando pessoas necessitadas de amparo, quer elas estejam lá ou não, quer estejam encarnadas ou não.

A seguir eu transcreverei algo que meu pai me contou dias após nossa gira e que ilustra bem o que acabo de escrever acima:

"Bem que você havia dito na prece que 'nós não estamos aqui pela gente, que a caridade sempre é feita independentemente da quantidade' e foi exatamente isso o que aconteceu. Quando você incorporou, começou a entrar gente sem parar dentro da tenda, todas querendo conversar os Guias da casa. Foi lindo, parecia que os orixás tinham ido buscar as pessoas a dedo por ali. Por que, em meio a centenas de tendas, eles escolheram a nossa que estava tão vazia?"

De fato eu não me recordava de ter dito aquilo na prece (assim como não me recordo de muitas coisas que digo durante os trabalhos no terreiro), mas a afirmação estava correta, porque a caridade é sempre realizada, basta que estejamos unidos de corpo e alma, basta que estejamos preparados, pois assim nós pavimentamos o terreno para que os bons espíritos possam ajudar as pessoas. Neste caso, eles literalmente levaram as pessoas até lá e as ajudaram, felizmente.

Então, meus amigos, estejam sempre preparados, porque, por mais que sua gira esteja vazia de encarnados, a caridade será feita desde o plano físico até os planos mais sutis e imperceptíveis.

Axé!

10 de mar. de 2015

Coisas de terreiro, fora do terreiro


A gente faz uma porção de coisas no terreiro, não é? Desde as mais simples, como conviver com pessoas, se relacionar com elas, passando pelas mais mecânicas como a execução de rituais padrão, do tipo bater cabeça, cantar, defumar etc., até as coisas mais, digamos, pesadas, como fazer descarrego, limpezas espirituais, oferendas específicas entre outras coisas.

Como seres humanos, temos a capacidade de aprender com tudo, basta olharmos e já estamos criando noções de como empreender determinada tarefa. Se a realizarmos uma vez, mais fácil ainda. Contudo, para cada coisa nessa vida há pelo menos três aprendizados correlatos:

  1. O objeto: o que fazer?
  2. A forma: como fazer?
  3. A necessidade: porque fazer?
  4. O objetivo: para que fazer?
  5. O tempo: quando fazer?
Suponhamos que você, para um trabalho qualquer que seja, se sinta apto, em termo de conhecimento, em  qualquer um destes fatores, ou seja, você sabe o que deve ser feito, conhece o processo de execução, seus motivos e necessidades. Recomendo a você que pense no 6º quesito: onde fazer?

Tenham em mente um princípio básico: terreiro não existe a toa. Terreiro não é apenas um salão para a reunião dos médiuns, é um lugar preparado para os rituais e todo o trato espiritual. Então, antes de cogitar realizar qualquer procedimento, certifique-se de que você está no lugar certo para isso.

Pensou? Está certo disso? Então vamos partir para o quesito essencial...

8º A pessoa: quem pode fazer? Você sabe fazer, está no lugar certo, mas é a pessoa certa para isso? Você tem permissão para fazer isso?

Acreditem, conheço muita gente bem intencionada e de muita fé, mas que acabaram se perdendo por lidarem com coisas as quais não possuem permissão para tal. Nossa psique é incapaz de compreender a espiritualidade em sua plenitude. Nem as coisas boas, muito menos as suas nuances mais obscuras.

Então pensem bem, irmãos, antes de se aventurarem em campos desconhecidos, por melhores que sejam suas intenções.

13 de fev. de 2015

Devo fazer cursos sobre Umbanda?

Tudo o que aprendi começou com ela, minha mãe de santo.
Eu já havia dito aqui no blog que a graça da Umbanda é a sua mutabilidade, ou seja, ela está sempre mudando e agregando coisas novas. Acho que se não fosse por isso, dificilmente eu ainda estaria por aqui, mas estou, porque a Umbanda é linda e sempre aprendo algo novo com ela.

Em nossa página do Facebook me pediram para escrever sobre a importância de cursos preparatórios para os médiuns, pensei sobre o tema e estou aqui para falar sobre isso, mas antes de começarmos, gostaria que vocês lessem um texto que fiz recentemente sobre o Livro Sagrado da Umbanda e os perigos do repasse pouco honesto do conhecimento.

Eu julgo, além de justo, essencial essa transmissão de conhecimento, eu mesmo não crio dogmas e nem guardo segredo sobre o que sei, porque acredito que fá é acreditar naquilo que não vemos, mas não deve ser cega. E nem burra.

A partir do momento em que você sabe o que está fazendo e (principalmente) o porquê disso, você pode fazer melhor! Mas sou bem conservador neste ponto também, pois para mim esse repasse de informações deve ser feito dentro do terreiro, na comunidade a qual você faz parte. Como fazer isso? Perguntando para as entidades mais graduadas da casa, para seus irmãos mais velhos e pais de santo, em cursos ministrados dentro de seu terreiro.

E os cursos de especialização em Umbanda, são válidos?

Em minha opinião, não. Já falei aqui sobre como se tornar um pai de santo, não basta estudar, tem que receber o chamado. Essa lógica vale para todos os demais cursos e workshops que existem por aí, pois eles, para início de conversa, são pagos e eu não concordo com cobranças de qualquer espécie na Umbanda. Além do mais, cada casa tem a sua forma de fazer as coisas e ficar fazendo cursos por aí poderá macular essa transmissão de conhecimento entre o guia e seus médiuns, que é tão bonita em nossa religião.

Em minha casa, meu foco é ensinar as pessoas a pensar e agir de forma livre, mas dentro da doutrina do terreiro. Sem invencionices, tudo muito simples. Temos a nossa apostila (que você pode baixar de graça aqui) que contem o básico da doutrina, que são as preces, significados dos rituais, breve explicação sobre cada orixá e pontos cantados. Esta é a base sobre a qual iniciamos nossas discussões. Simples assim, porque é na simplicidade que a umbanda aflora.

Dúvidas? Deixe nos comentários!

23 de jan. de 2015

Quando a mediunidade se volta contra você

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Karma: a Lei do Retorno e Justiça Infalível
Irmãos, como vão? Demorei um pouco para fazer o primeiro texto de 2015, porque queria um tema especial e foi durante esta espera que recebi um e-mail de um irmão que me contou sua história, como sua mediunidade se virou contra si.

Em resumo, este rapaz tem a mediunidade muito aflorada, do tipo que vê e sente muita coisa (boa e ruim) o tempo todo. Foi quando ele resolveu desenvolver o seu dom e neste período sua clarividência ficou mais forte. Ele sem dúvidas ajudou muita gente, contudo as provas de que sua mediunidade era realmente muito forte o tornaram um homem vaidoso, chegando ao ponto de ameaçar as pessoas que não fizessem o que ele queria, que não lhe dessem dinheiro ou não o temessem. Triste.

Triste mesmo foi a depressão sob a qual ele misteriosamente padeceu. A solidão que o acometeu até que ele começasse a repensar seus atos. E ele o fez, mas decidiu se afastar completamente de tudo o que remetesse à vida espiritual e foi melhorando, mas sentia que seu coração necessitava da Umbanda, de fazer a caridade e desenvolver seus dons. Então ele me procurou via e-mail e me contou a história que acabei de lhes resumir.

Meus conselhos para este irmão, frutos de minha reflexão sobre o tema, eu resumirei também aqui.

A grande moral da história aqui é que a mediunidade não nos pertence, muito pelo contrário, nós recebemos o dom para compartilhar com os demais irmãos necessitados de amparo. Nada além disso, ela não nos torna especiais ou superiores. O médium é apenas um meio, uma ponte para a comunicação entre o plano espiritual - que não possui as limitações do sentidos e da carne, que é imortal e sábio - e o nosso plano, o físico. Mediunidade é muito mais ônus do que bônus, porque ela é grandiosa, contudo não para o nosso uso, seja ele recreativo ou profissional. ela nos serve, claro, mas como forma de aprendizado. É como ter uma Ferrari que só podemos utilizar para dar carona a quem tem legítima urgência. enquanto você a utiliza, vai se desenvolvendo como motorista e o passageiro chega ao seu destino.

A partir do momento em que você subverte esta realidade (a de que o dom não é para o seu usufruto), toda ordem natural das coisas é subvertida também, tudo sai do lugar. Com isso pessoas sofrem, a caridade deixa de ser feita e a vida tem que trabalhar dobrado para corrigir o mal feito e voltar ao seu curso normal. Mas como a Lei do Retorno impera no universo, o caos se volta contra quem o semeou e você paga o preço disso, sentindo o peso do mundo em suas costas.

Ser médium é algo maravilhoso, desde que saibamos o propósito deste voto de confiança de Deus em nós.

Axé!

18 de dez. de 2014

Natal e Ano Novo na Umbanda

É a hora dos umbandistas pularem sete ondas?
Muitas pessoas me perguntam sobre as comemorações de Natal e Ano Novo dos umbandistas. Nós devemos fazer algo especial nestas datas? Afinal, o Natal, que celebra o nascimento (data não confirmada) de Jesus Cristo, deve ser celebrado por quem frequenta a Umbanda?

Antes de responder a esta pergunta, devemos nos questionar se a Umbanda é uma religião cristã. A resposta é: SIM, nós somos cristãos e eu defendo meu ponto de vista aqui neste texto sobre Jesus.

Respondido isso, vem a grande pergunta:

Temos que fazer algum ritual especial no Natal?
Não. Está certo que cada casa tem a sua liturgia própria (e eu amo a Umbanda por isso), mas em minha casa e também nas casas que conheço não há nenhum ritual de Natal ou de passagem de ano. Há sim os rituais de encerramento do ano do terreiro, ou seja, após a última gira do ano cada terreiro tem seu procedimento para fechar a coroa dos médiuns para que eles façam um recesso digno e possam descansar melhor afim de voltarem plenos para as giras do ano seguinte. Contudo não há nada específico para o Natal e a virada do ano.

O que recomendamos é que todos dediquem momentos de sua vida nestes dias para oração em prol dos irmãos necessitados de luz, que levem a cabo os ensinamentos de Jesus Cristo e continuem praticando a caridade, que ajudem o próximo. Natal é uma data de alegria, então por que não fazer a alegria de alguém que esteja em um momento de aflição?

No ano novo cada um tem seus rituais como comer lentilha, pular sete ondas, usar calcinha amarela para chamar dinheiro ou cueca vermelha para atrair paixões, mas na Umbanda não há, novamente, nada especial para esta ocasião. Minha recomendação é que vocês separem algumas horas do seu dia para ficarem a sós consigo mesmos e refletir sobre o ano que passou, os bons e maus passos, sobre tudo aquilo que vocês deviam mantar ou se livrar no próximo ano. Novamente, ore para seus orixás e agradeça por estarem vivos e prontos para as batalhas que virão, peçam força para ajudar o próximo.

Se puderem, mantenham acesas as chamas de seu altar, tomem banhos de ervas (boldo é uma ótima pedida, por ser a erva de Oxalá).

E sejam felizes! 

19 de nov. de 2014

O Livro Sagrado da Umbanda


Não sei se vocês concordam comigo, mas uma das características que tornam a Umbanda bela é a sua liberdade de ser. Isso se dá porque nós umbandistas não temos um livro sagrado como a Bíblia o Al Corão ou Torá, embora sigamos vários preceitos cristãos ("Amai a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo" é um deles e talvez o mais importante).

Além de não possuirmos escrituras sagradas, também não contamos com um representante supremo, como o Papa ou Dalai Lama, por exemplo, para ditar os rumos de nossa religião. Essa inexistência de um código ou soberano para balizar o caminho evolutivo da Umbanda a torna uma joia rara dentre as religiões contemporâneas espíritas, porque assim podemos caminhar sob a égide mista dos ensinamentos do astral superior que nos são trazidos através das entidades que se manifestam nas giras.

Além de contar com a voz dos Guias como força motriz, outro fator importantíssimo para a nossa caminhada religiosa é a compreensão dos conselhos recebidos do Astral e, mais importante ainda, o emprego disso tudo, ou seja, tornar em ação os conselhos recebidos. 

Além de absorver, compreender e transformar em ação os conselhos e ensinamentos, o passo seguinte é o desdobramento disso tuto. Em outras palavras, a geração de conhecimento por parte do indivíduo. Se você já tem em si a semente plantada pelos Mentores Espirituais e pratica o amor e a caridade, já está apto a se tornar peça mais ativa da evolução do conhecimento, mas sempre mantendo a humildade ou então você poderá correr o risco de ser tomado pela vaidade ou arrogância de muitos autores e/ou sacerdotes umbandistas que decidiram decodificar a Umbanda ao seu próprio modo, assumindo a responsabilidade de quem julga falar em nome de toda a religião. O que é um erro.

Eu já havia dito aqui que a Umbanda é como uma nuvem, ou seja, ela é mutável e pulverizada, mas percebida por seu volume enquanto suas partículas se movem unidas em uma mesma direção. Contudo, a partir do momento em que um autor (ou conjunto deles) a decodifica, eles outorgam a si uma autoridade que não conquistaram, além de negar as pequenas realidades e ensinamentos de cada terreiro. O que acontece em seguida é que essas novas decodificações tem eco entre sacerdotes menos sólidos em seus conceitos e tradições, que simplesmente abandonam tudo aquilo que lhes foi ensinado diretamente do Astral Superior e passam a se guiar por um livro que acabou de sair da gráfica. Com isso, todo o trabalho de repasse de inteligência a partir das entidades de luz é perdido.

Outro fato interessante que vale a atenção do leitor destes livros é que essas novas decodificações estão ficando cada vez mais complexas e menos espaçadas entre si. Só nos últimos 10 anos foram ao menos 4 delas, o que reflete não uma mera busca por respostas e elucidações, mas sim pelo poder trazido pela detenção do conhecimento. Uma vez que eu pego algo simples e leve como a Umbanda e a transformo em um complexo emaranhado de gráficos acadêmicos, me torno o detentor daquelas respostas, sou o dono do conhecimento. E conhecimento é poder que só compartilharei com quem comprar os livros e cursos que apenas eu sei ministrar.

Irmãos, o Livro Sagrado da Umbanda está dentro de cada um de nós, basta termos olhos suficientemente abertos e a mente limpa para podermos lê-lo.

Pensem nisso.